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Alzheimer e sono

A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que foi documentada pela primeira vez em 1906 por Alois Alzheimer (SORIA LOPEZ; GONZÁLEZ; LÉGER, 2019). A degeneração ocorre principalmente em áreas responsáveis pela linguagem, memória, processamento visual e funções executivas (KNOPMAN; AMIEVA; PETERSEN; CHÉTELAT et al., 2021). O diagnóstico é dificultado pelos inícios tardios dos sintomas observáveis, que ocorrem entre 10 a 20 anos após o início da degeneração (SPERLING; AISEN; BECKETT; BENNETT et al., 2011) e o maior fator de risco para o desenvolvimento da doença é a idade. Ainda há controvérsias em relação às causas da doença, no entanto, a hipótese mais prevalente é de que a doença ocorre a partir do acúmulo de proteína beta amiloide no cérebro (SELKOE, 2004). Embora a doença de Alzheimer seja a maior causa de demência, esta condição pode ser desencadeada por outras patologias neurodegenerativas, especialmente em idosos (KAPASI; DECARLI; SCHNEIDER, 2017). Ademais, a prevalência de demência é elevada e tende a se elevar mais, partindo de 50 milhões de pessoas em 2010 e chegando a 113 milhões de pessoas ao redor do mundo no ano 2050 (BRODATY; BRETELER; DEKOSKY; DORENLOT et al., 2011). Portanto, considerando a característica debilitante da doença e sua alta prevalência, o objetivo deste artigo é elucidar as relações entre a doença de Alzheimer e o ciclo vigília-sono.  

Distúrbios de sono e de ritmo vigília-sono são comuns em pacientes com doença de Alzheimer. Estes pacientes apresentam desequilíbrios em relação ao horário de início e duração do sono, que se manifesta através de maior latência para início de sono e tempo acordado durante a noite, bem como episódios de sono durante a fase clara do dia que, com o passar do tempo, pode gerar inversão da fase de sono destes pacientes. Analisando a arquitetura do sono, é possível observar que estes pacientes apresentam redução na proporção de sono REM em comparação a indivíduos controle da mesma idade, levando à restrição crônica de sono REM (PETIT; GAGNON; FANTINI; FERINI-STRAMBI et al., 2004). Não somente, estes pacientes também apresentam redução da proporção de sono de ondas lentas (MARTIN; LOEWENSTEIN; KAYE; EBERT et al., 1986). 

Estas alterações na organização temporal e na estrutura do sono acontecem cedo no percurso da doença. Há estudos em ratos demonstrando que a deposição de proteína beta amiloide acarreta alterações na arquitetura do sono, atraso da fase de sono, nível de atividade noturna alterado e redução do sono REM. Estes efeitos eram, em alguns casos, revertidos após imunoterapia com beta amiloides, demonstrando o papel que esta proteína exerce nos pacientes (ROH; HUANG; BERO; KASTEN et al., 2012).  

Tais distúrbios são agravados pela idade, especialmente se estes indivíduos possuírem outras condições clínicas. Isto os leva a reduzir os níveis de atividade física, horários de refeições irregulares e, consequentemente, gerando poucos estímulos para sincronização do ritmo vigília-sono. Reforçando este componente, pacientes institucionalizados frequentemente possuem baixa exposição à luz e, por fim, medicações para depressão, hipertensão e doenças cardíacas podem levar a distúrbios do ritmo vigília-sono (JU; LUCEY; HOLTZMAN, 2014). Estes fatores amplificam os sinais que contribuem negativamente para a qualidade de sono e estabilidade do ritmo vigília-sono. 

Por outro lado, há estudos demonstrando que a restrição de sono e/ou sono de má qualidade são fatores predisponentes para o desenvolvimento de desordens cognitivas (FAUBEL; LÓPEZ-GARCÍA; GUALLAR-CASTILLÓN; GRACIANI et al., 2009). Um estudo prospectivo avaliou o sono de voluntários utilizando actigrafia e os resultados demonstraram que a fragmentação de sono aumentou o risco para desenvolvimento da doença de Alzheimer (STERNICZUK; THEOU; RUSAK; ROCKWOOD, 2013). Tanto em ratos quanto em humanos, os níveis de beta amiloide solúvel flutuam ao longo da vigília-sono, de forma que os níveis aumentam durante a vigília e decrescem durante o sono. Assim, a privação de sono aguda aumenta a concentração de beta amiloide e, além disso, a restrição de sono crônica acelera a deposição de beta amiloides em placas insolúveis (ANCOLI-ISRAEL; COLE; ALESSI; CHAMBERS et al., 2003).  

Conclusão 

A doença de Alzheimer é uma condição extremante debilitante para o indivíduo e, em relação ao sono, as evidências indicam que insônia noturna, agitação durante a noite e sonolência excessiva diurna afetam de 25 a 40% dos pacientes com doença de Alzheimer, de forma que a intensidade destes distúrbios se correlaciona com a intensidade da doença. Como já mencionado, os ritmos circadianos apresentam redução na amplitude dos ritmos endógenos e atraso de fase destes ritmos, especialmente em estágios avançados da doença. Distúrbios de sono acontecem cedo no percurso da doença, fato que contribui para o avanço da patologia. Assim, é importante que estes pacientes sejam monitorados e recebam cuidados específicos, especialmente em relação à avaliação dos ritmos biológicos e distúrbios de sono. 

Como avaliar o sono destes pacientes 

A polissonografia é considerada o padrão ouro para avaliação do sono, porém, a utilização deste método em pacientes com doença de Alzheimer geralmente é difícil pois exige cooperação do paciente e, em muitos casos, especialmente em estágios avançados da doença, os pacientes não conseguem tolerar procedimentos de laboratório. De maneira similar, a aplicação de questionários, como por exemplo o Índice de Qualidade de Sono de Pittsburgh (Pittsburgh Sleep Quality Index – PSQI) apresentam pouco valor prático, visto que estes pacientes tendem a subestimar os distúrbios de sono e de ritmos já existentes, mesmo em estágios iniciais da doença (MOST; ABOUDAN; SCHELTENS; VAN SOMEREN, 2012), levando a resultados enviesados.  

Assim, a actigrafia se torna um procedimento mais adequado para avaliar o sono e ritmo vigília-sono nestes pacientes, visto que é uma técnica menos invasiva. A actigrafia é uma técnica que pode ser utilizada para avaliar o padrão de sono e do ritmo vigília-sono. O actígrafo é um dispositivo semelhante a um relógio de punho que contém sensores de luz, movimento e temperatura. Assim, através destas informações, é possível extrair dados a respeito de variáveis como tempo total de sono, latência para início do sono, tempo acordado após início do sono, eficiência de sono, tempo em vigília e variáveis relacionadas ao ritmo, como cosinor, espectograma, periodograma, e variáveis não paramétricas como L5, M10, IS e IV.  

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