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As consequências dos distúrbios de ritmo circadiano

A restrição ou a privação do sono, a troca regular do dia pela noite, a insônia severa, horários irregulares para as refeições e mudanças no fuso horário são eventos, entre outros, que mexem com o nosso chamado relógio biológico, promovendo consequências diretas no nosso comportamento ao longo de todo o dia.

Esta desregulação pode provocar sintomas como cansaço excessivo, perda da concentração, dor de cabeça, irritabilidade, estresse e insônia – apenas para citar alguns deles – e podem culminar até mesmo em doenças muito sérias, como as doenças cardíacas e câncer. Tratam-se dos distúrbios de ritmo circadiano, que podem ser severos e fazer muito mal à nossa saúde.

Neste artigo, vamos citar algumas das consequências dos distúrbios de ritmo circadiano. Este é um assunto sério e relevante, que merece toda a sua atenção, e a busca por ajuda médica, caso estes distúrbios estejam lhe roubando qualidade de vida.

O que é ritmo circadiano?

Também conhecido como ciclo circadiano, o ritmo circadiano nada mais é do que o período de cerca de 24 horas no qual se baseia um ciclo biológico. Uma série de eventos do nosso organismo se ligam a esse período, recebendo influências externas e suas respectivas consequências. Um bom exemplo disso – o mais clássico deles – é a nossa necessidade de dormir à noite, quando escurece, e nos manter em vigília durante o dia, quando clareia.

Para entender bem e de forma muito fácil o que é ritmo circadiano, é preciso destacar o conceito da palavra “ritmo”, que é, segundo o Dicionário Oxford, “movimento regular e periódico no curso de qualquer processo”. Pois bem, como já explicamos em um conteúdo específico sobre o que é ritmo circadiano, que merece sua leitura, os eventos naturais, como os ritmos nas marés, o nascer e o pôr do sol e as fases da lua têm uma ritmicidade estável ao longo do tempo, a milhares e milhares de anos, e naturalmente nos afetam.

Em suma, o ritmo circadiano é o mecanismo pelo qual nosso organismo se regula, o chamado  “relógio biológico”. Por conta dele, sentimos fome, sede, sono e necessidade de nos manter em vigília, entre outros eventos.

A importância do ritmo circadiano

A luz do dia e sua ausência durante a noite têm uma influência direta e decisiva sobre o nosso relógio biológico. Esse relógio biológico atua como um relógio interno, estabelecendo os “horários” de nossas atividades diurnas e noturnas, principalmente os estados de vigília e de sono.

Mas não é só. O ritmo circadiano também exerce influência direta sobre a nossa pressão arterial, sobre a nossa fome, sobre a temperatura do nosso corpo e, ainda, sobre hormônios que produzimos e liberamos via corrente sanguínea. Ou seja, há uma influência direta sobre todo o nosso metabolismo e os nossos comportamentos ao longo de todo o dia.

O ciclo circadiano tem, portanto, total interferência, por exemplo, na liberação de cortisol, que nos ajuda a levantar da cama, todos os dias, pela manhã, na produção de insulina, que nos auxilia no uso da glicose obtida nos alimentos, assim como na produção de melatonina, essencial para a hora do sono.

Fica fácil entender que distúrbios que vivemos, sejam alimentares, provocados por estresse ou pela privação de sono, são capazes de provocar desequilíbrios hormonais que, prolongados, podem ser a porta de entrada de infecções, gripes ou mesmo patologias mais sérias, como doenças vasculares e câncer.

Os 3 tipos de relógio biológico

Sim, existem três tipos de relógios biológicos; afinal, as pessoas não são iguais. As pessoas organizam suas vidas com hora para ir dormir, acordar, trabalhar, se alimentar e promover atividades de lazer, e isso não é igual para todo mundo.

Não é verdade que tem gente que rende muito mais pela manhã, enquanto outros rendem mais de tardinha, ou à noite? É exatamente por conta dos três tipos de relógio biológico, que são:

• Matutino ou diurno: essas pessoas gostam e preferem acordar cedo, rendem muito bem logo pela manhã e vão dormir cedo. Em geral, têm mais dificuldades de se concentrar à noite.

• Vespertino ou noturno: ao contrário das pessoas matutinas, os vespertinos produzem muito mais à noite, ou mesmo de madrugada, concentrando suas atividades nestes horários. Em geral, têm um ciclo de sono/vigília mais irregular e sentem dificuldade de concentração pela manhã.

• Intermediários: também conhecidos como indiferentes, estes se adaptam aos horários com mais facilidade, sem preferência de um horário específico. A maior parte da população mundial é intermediária.

O que pode causar distúrbios de ritmo circadiano

Alguns fatores podem influenciar o ritmo circadiano, provocando distúrbios. Os principais são:

• Trabalho regular à noite;

• Gravidez;

• Mudanças no fuso horário;

• Uso de determinados remédios;

• Mudanças repentinas de rotina;

• Privação do sono;

• Dormir muito tarde e acordar muito tarde;

• Menopausa;

• Doença de Parkinson;

• Mal de Alzheimer.

Além de afetar o sono, esses distúrbios podem prejudicar na produção de hormônios, alterar a temperatura corporal, interferir no metabolismo e nos hábitos alimentares, o que pode desenvolver diabetes, obesidade e depressão, entre outros.

Categorias profissionais que têm maior risco de sofrer distúrbios de ritmo circadiano

Em geral, trabalhadores que fazem turnos alternados ou que trabalham em horários diferentes do período padrão (das 9h às 17h) têm mais riscos de sofrer distúrbios de ritmo circadiano. São eles:

• Todos os profissionais da saúde (e que trabalham em plantões, nos hospitais);

• Motoristas e pilotos;

• Pessoal que trabalha no ramo da alimentação (padarias, por exemplo);

• Policiais;

• Bombeiros;

• Vigilantes.

Distúrbio da síndrome do atraso da fase do sono

Trata-se de um distúrbio de ritmo circadiano muito comum. As pessoas acometidas por este distúrbio apresentam dificuldade para adormecer, preferem dormir até mais tarde e têm problemas para levantar cedo. Embora durmam e acordam mais tarde, essas pessoas em geral têm uma qualidade de sono normal. Para ajustar seu relógio biológico, recomenda-se atrasar o sono por mais duas ou três horas, a cada dois dias, até conseguir estabelecer um horário mais adequado de sono. Outra dica boa é oferecer luz intensa no horário adequado para acordar.

A síndrome do avanço da fase do sono

É o contrário da síndrome do atraso da fase do sono. Neste caso, a pessoa acometida adormece e acorda cedo demais, o que também pode causar problemas sociais. Muitas vezes a pessoa acometida por essa síndrome, também um distúrbio de ritmo circadiano muito comum, sente sono já no início ou no finalzinho da tarde. A fototerapia (uso de luzes especiais como forma de tratamento) pode ser indicada para estes casos, bem como atrasar o horário de deitar, de uma a três horas a cada dois dias, até ajustar o horário ideal.

Transtorno tipo padrão irregular

Acometidos por este transtorno apresentam um ritmo circadiano do ciclo sono/vigília indefinido, portanto irregular. Os sintomas mais comuns apresentados são sonolência e insônia intensa, e as principais causas são má higiene do sono, falta de exposição ao sol, sedentarismo e até falta de atividades sociais. Para tratar, é preciso estabelecer um horário fixo para o sono, além da prática de atividades físicas regulares.

Transtorno tipo ciclo sono-vigília diferente de 24horas

Esse transtorno leva a pessoa a apresentar um ciclo circadiano de cerca de 25 horas, portanto mais longo do que o comum. Isso pode provocar insônia e, ainda, sonolência excessiva. Em geral, a causa desse distúrbio de rimo circadiano é a falta de luz, assim as pessoas cegas têm mais chances de desenvolvê-lo. Pode-se utilizar no tratamento a ingestão de melatonina ao entardecer.

Transtorno do sono relacionado com a mudança de fusos horários – Jet Leg

Também conhecido como Jet Leg, esse transtorno é transitório, e pode durar de dois a 14 dias, dependendo dos fusos horários atravessados, da idade e da capacidade física da pessoa. Ele está naturalmente relacionado às viagens de longa distância de avião. A pessoa acometida pode apresentar sonolência excessiva e insônia, além de acordar várias vezes ao longo da noite, mas seu ciclo circadiano endógeno não está anormal. O problema é que o distúrbio acontece por conta de um conflito entre o ciclo sono-vigília e a necessidade de se estabelecer um novo padrão devido ao fuso horário diferente.

Acometidos por este transtorno também podem apresentar desconforto gastrointestinal, alterações na memória e concentração, dificuldade de coordenação, fraqueza, tonturas, dor de cabeça, cansaço, mal estar e diminuição do apetite. Para tratar é preciso fazer uma higiene do sono antes, durante e após a viagem, adaptando-se ao horário de sono/vigília do local de destino. Alguns medicamentos podem ser receitados pelo médico.

Transtorno do sono do trabalhador em turnos

Acomete profissionais que trabalham por turnos, com mudança repentina de horário. Nestes casos, o ritmo circadiano não consegue se adaptar adequadamente a estes horários irregulares. Como exemplo, pode-se citar o trabalho de uma enfermeira, que faz plantões de até 24 horas a cada três dias.

Os principais sintomas apresentados pelos acometidos por esse transtorno são insônia e sonolência, diminuição da vitalidade e do desempenho, aumento da taxa de câncer de mama, colorretal e de próstata, além do aumento da pressão sanguínea, aumentos de distúrbios gastrointestinais e problemas reprodutivos.

O tratamento não é nada fácil por conta do horário do trabalhador, que precisa cumpri-lo cotidianamente. Se os sintomas causarem muito desconforto e perda de qualidade de vida, o médico poderá receitar remédios estimulantes ou sedativos e hipnóticos.

A influência do ritmo circadiano sobre o nosso peso corporal

Já ficou claro que o ritmo circadiano influencia, por exemplo, nossa necessidade de nos alimentar nos horários das refeições, notadamente na hora do café da manhã, do almoço e do jantar. O que estudos mais recentes descobriram, é que a desorganização do ciclo circadiano pode ter consequências sobre o nosso peso corporal.

Quando está de noite, nosso corpo intensifica a liberação do hormônio melatonina, por meio da glândula pineal. Se estivermos em equilíbrio e com esse funcionamento normalizado, a melatonina atuará diretamente sobre o nosso sono, no processo de renovação celular, em processos inflamatórios, na modulação dos efeitos do estresse, na fertilidade feminina, amenizando sintomas da menopausa e até mesmo sobre a queima de gordura corporal.

Desequilíbrios no nosso ritmo circadiano, por meio, por exemplo, de restrição ou privação de sono, podem provocar alterações fisiológicas em nosso corpo, inclusive o aumento da gordura.  De acordo com a tese de doutorado do Dr. Bruno Halpern, na Universidade de São Paulo (USP), intitulada “O papel da melatonina na regulação do tecido adiposo marrom” (2018), o hormônio melatonina tem um papel fundamental na ativação do tecido adiposo marrom  (célula queimadora de gordura), na queima do tecido adiposo branco (célula armazenadora de gordura).

Portanto, distúrbios no ciclo circadiano podem te consequência direta no nosso peso corporal.

A actigrafia e o tratamento dos distúrbios do sono

Os distúrbios do sono são muito comuns entre as consequências dos distúrbios de ritmo circadiano. Uma forma de acompanhar os ciclos de atividade e de repouso, com captação, compilação e processamento de informações para estudo do ritmo do sono e da vigília, é o uso da actimetria, também conhecida como actigrafia.

A actigrafia é realizada por meio do actígrafo, que na maior parte dos modelos se assemelha a um relógio de pulso, preso ao braço não dominante do paciente. O actígrafo colhe e compila toda a movimentação da pessoa por meio de acelerômetros, e os aparelhos mais modernos oferecem, ainda, sensores de temperatura e luminosidade, entre outros, possibilitando uma análise ainda mais profunda.

Vale pontuar que a actigrafia detecta distúrbios do sono e de ritmo circadiano, avaliando a qualidade do sono, o tempo que a pessoa permanece na cama e episódios de sono durante o dia. O actígrafo é muito utilizado para estudos na área da medicina do sono, na psiquiatria, medicina do trabalho, psicologia comportamental e outras áreas onde a ritmicidade circadiana tenha papel fundamental para estudo de distúrbios.

Conclusão

As consequências dos distúrbios de ritmo circadiano podem ser severas e absolutamente prejudiciais à nossa saúde. Podem, inclusive, evoluir para uma depressão, uma diabetes, uma doença cardíaca ou mesmo um câncer. Portanto, precisam ser tratadas ao menor sinal de comprometimento da nossa qualidade de vida.

Os tratamentos vão variar de caso a caso, mas, em geral, é preciso promover mudanças no nosso estilo de vida, como a prática regular de exercício físico e regular o sono. Alguns remédios também poderão ser receitados pelo seu médico. O actígrafo pode ser muito recomendado para pesquisar mais profundamente tanto os distúrbios do sono como os distúrbios do ritmo circadiano.

Para preveni-los é preciso evitar substâncias que afetam o sono, como cafeína, álcool e nicotina (ao menos não ingeri-los após as 16hs), deve-se consumir bebidas frias (principalmente água e chás gelados), manter um horário regular de sono, tomar banho de sol e evitar luzes artificiais ao entardecer e durante a noite (principalmente a chamada luz azul, de computadores e celulares, e a luz de lâmpadas de LED brancas).

As pesquisas sobre o ritmo circadiano estão evoluindo cada vez mais. O estudo “A world first in circadian clock manipulation”, do Instituto de Biomoléculas Transformativas da Universidade de Nagoya, por exemplo, descobriu dois compostos que prolongam o período do ciclo circadiano e produziu um método reversível para controlar o período do ritmo. Essas pesquisas ajudarão, certamente, no tratamento dos distúrbios de ritmo circadiano e do sono também.

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