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Cognição e sono: as influências que um sono ruim tem na cognição

Cognição e sono: as influências que um sono ruim tem na cognição

A medicina sabe muito bem os efeitos maléficos que noites de sono de má qualidade provocam na nossa saúde. Mas os cientistas ainda não conhecem muito bem como isso afeta a nossa cognição, nossa memória e a nossa habilidade de concentração. A verdade é que precisamos dormir em média 8 horas por dia, salvo os pequenos e grandes dormidores,  o que significa que passamos um terço de nossas vidas dormindo, e um sono de qualidade é tão importante para a nossa saúde quanto se alimentar bem e praticar atividade física regular.

Neste conteúdo, preparado por nossos especialistas, vamos falar sobre a relação entre cognição e sono: as influências que um sono ruim tem na cognição. Quais são as consequências de um sono ruim sobre a nossa cognição? Você sabia que uma pesquisa associou a noites de sono irregular aos efeitos do álcool sobre o cérebro? Conheça, agora, as influências que um sono ruim tem na cognição.

O que é cognição

Do latim congnoscere, que significa conhecer, cognição, na sua mais ampla definição, é tudo o que está relacionado ao conhecimento. Cognição é a capacidade que nós temos de processar informações por meio da percepção, assimilando e processando informações que obtemos das mais diversas fontes, como as nossas percepções, nossas experiências, crenças, leituras, conversas e etc.

Segundo definição do dicionário Michaelis, cognição é “ato ou efeito de conhecer; processo de aquisição de um conhecimento; conhecimento; conjunto de processos mentais conscientes que se baseiam em experiências sensoriais, pensamentos, representações e recordações”.

A cognição é constituída por diversos processos cognitivos, entre os quais a aprendizagem, a atenção, a memória, a linguagem, o raciocínio, e tomada de decisões, que nos ajudam a nos desenvolver intelectualmente. A cognição é amplamente estudada pela neurologia, pela psicologia, pela antropologia e, ainda, pela filosofia. Mas é a psicologia cognitiva, que surgiu no finalzinho da década de 1950, que a estuda e analisa de forma mais profunda, avaliando como o processo de informações influenciará no nosso comportamento e qual é a relação entre os diferentes processos mentais e o conhecimento.

O interesse pela cognição cresceu muito a partir da década de 1960, e autores como o biólogo Jean Piaget e o psicólogo Lev Semionovich Vigotsky contribuíram muito para o seu entendimento. Avanços na área de neuroimagiologia trazem conhecimentos psicológicos e neuroanatômicos mais profundos, permitindo a ciência entender melhor os processos mentais e suas influências sobre os nossos comportamentos e as nossas emoções.

O que são distúrbios do sono?

Para falarmos e entendermos um pouco mais sobre cognição e as influências que um sono de má qualidade, não restaurador e insuficiente pode ter sobre ela, é importante falar, também, sobre distúrbios do sono. De uma forma bem resumida, distúrbios do sono são doenças que afetam diretamente a qualidade do sono regularmente.

Os distúrbios do sono mais conhecidos são a insônia, a apneia do sono, o terror noturno, a narcolepsia, o sonambulismo, a síndrome das pernas inquietas e o bruxismo, entre outras. Estes distúrbios do sono nos roubam qualidade de vida, provocam cansaço, irritação, alteração do humor, sonolência ao longo do dia, dificuldade de concentração, queda no rendimento no trabalho e dos estudos e dor de cabeça, mas podem chegar a provocar consequências ainda mais sérias, como depressão, acidente vascular cerebral ou até mesmo uma doença cardiovascular.

Os distúrbios do sono, consequência de noites mal dormidas regularmente, afetam diretamente nossa cognição, e é sobre isso que falaremos agora.

Sono X funcionamento do cérebro

Como e quanto a qualidade do sono pode influenciar o funcionamento do nosso cérebro? Cientistas dos departamentos de Psiquiatria e Neuropsiquiatria da Coreia do Sul resolveram buscar uma resposta para essa indagação por meio do estudo “Sleep and Cognitive Decline: A Prospective Non-demented Elderly Cohort Study”, publicado em 2018 na Annals of Neurology, uma conceituada revista médica dedicada a publicar e divulgar artigos científicos voltados para a neurologia. O objetivo maior dos pesquisadores era aprofundar o conhecimento e entendimento sobre a relação entre a qualidade do sono e o desenvolvimento de transtorno cognitivo em idosos. 

Durante quatro anos, a qualidade do sono e suas alterações na função cognitiva de 2.893 pessoas com 60 anos ou mais com cognição normal (CN) ou declínio cognitivo leve (DCL) foram avaliadas de forma individual. Foram avaliados o tempo médio de sono, idade, sexo, escolaridade, depressão, escala de doenças cumulativas (CIRS), nível socioeconômico, trabalho, tabagismo, atividade física, distúrbios do sono e avaliação de apneia do sono.

Resultados e conclusão

Os resultados de participantes da pesquisa com cognição normal (CN) mostraram que indivíduos com longa duração de sono, que demoram mais para dormir tem ou que têm a meia fase do sono (horário que se dá metade da duração do sono total) em horários mais tardios estão associados com uma maior prevalência de declínio cognitivo, quando comparados com os sujeitos com um sono mais saudável.

Já nos participantes que apresentam declínio cognitivo foi observado que indivíduos que demoram mais para dormir (atência de sono longa) têm 30% menos chance de reverter o quadro de déficit cognitivo quando comparado com indivíduos com a latência de sono curta duração de sono e meia fase de sono de base não estavam associados com alterações cognitivas.

Os pesquisadores descobriram, também, que a latência de sono longa no grupo com déficit cognitivo não afetou a incidência de demência, o que fez acreditar que possivelmente este não é um fator de risco, mas sim um sinal precoce de acometimento por demência nos pacientes. Entre os participantes com cognição normal, a longa duração do sono aumentou o risco de incidência de declínio cognitivo em 1,7 vezes.

A conclusão dos cientistas foi:

• A latência de sono longa pode ser utilizada como marcador precoce de Declínio cognitivo para idosos com cognição normal e com déficit cognitivo. 

• Duração de sono aumentada e a meia fase de sono tardia podem ser usados como marcadores apenas para idosos com cognição normal.

Vale lembrar que não apenas a duração de sono deve ser levada em consideração para uma noite de sono restauradora. A qualidade de sono também deve ser algo a ser observada. Um indivíduo com uma longa duração de sono de má qualidade pode ter um sono pior do que de um indivíduo com uma duração de sono curta, mas com boa qualidade. Para entender mais sobre estes aspectos, é recomendável o acompanhamento da rotina do sono por actigrafia.

A consequência da falta de sono sobre o cérebro

Para demonstrar a consequência da falta de sono sobre o nosso cérebro, o Instituto de Cérebro e Mente da Universidade Western, no Canadá, estão realizando uma ampla pesquisa, coordenada pelo neurocientista britânico Adrian Owen, sobre a consequência da falta de sono sobre o cérebro com milhares de voluntários de todo o mundo.Os cientistas acreditam que poderão determinar um número médio de horas necessárias para a otimização da função cerebral, embora a necessidade de sono seja absolutamente individual.

Um rápido experimento foi feito com cinco voluntários, que passaram uma noite na universidade: um psiquiatra de 42 anos, acostumado a plantões noturnos, uma mãe de 31 anos de duas meninas pequenas, um vigilante aposentado de 75 anos, uma neurocientistas de 31 anos, que faz pesquisas cognitivas com camundongos noturnas, o que lhe exige trabalhar a noite, e um jornalista da BBC. Durante o experimento, eles fizeram quatro testes realizados em computadores, tablets e smartphones.

O grupo ficou acordado até as 4h, e depois pôde dormir por quatro horas, quando os testes foram refeitos logo pela manhã. O jornalista, o vigilante aposentado e a neurocientista tiveram um desempenho muito pior do que o observado na noite anterior. O desempenho do psiquiatra mal se alterou, mas o da mãe das meninas chegou a melhorar. Ela disse estar muito acostumada a acordar e imediatamente ser muito solicitada pelas filhas.

Os pesquisadores fizeram uma tomografia computadorizada do cérebro do jornalista ao mesmo tempo que ele repetia os testes. Seu cérebro foi examinado duas vezes, após uma noite normal de sono e depois de uma noite mal dormida. A comparação das imagens mostrou que a falta do sono teve como consequência uma atividade do cérebro bem baixa, com menos atividades nos lobos frontal e parietas, que são áreas do nosso cérebro fundamentais para a tomada de decisões, a solução de problemas e ligadas a memória.

Em um outro estudo  no qual a duração de sono dos participantes foram controladas, foi observado que após 14 dias de restrição de sono, indivíduos que dormiram 6 horas ou menos, têm déficits cognitivos semelhantes a de sujeitos que passaram 24 horas sem dormir, podendo chegar a um déficit cognitivo semelhante a de sujeitos que ficaram 3 dias em total privação do sono!

Como o sono ajuda o cérebro a se reorganizar?

Uma pesquisa publicada na prestigiada revista científica Nature Communications mostra que o sono regular e de qualidade tem consequência positiva e ajuda o nosso cérebro a se organizar, o que é fundamental para a nossa cognição. De acordo com a pesquisa, o descanso do cérebro, por meio de uma boa noite de sono, permite um impacto positivo sobre a memória e sobre a aprendizagem no dia a dia.

Segundo a pesquisa, a atividade nos dendritos (uma região específica dos neurônios) é intensificada, e essa estrutura é fundamental para a capacidade do sistema nervoso mudar e atender novas demandas. A pesquisa mostrou que o aumento no desempenho dos chamados dendritos está intimamente ligado aos “fusos”, ondas cerebrais emitidas quando dormimos, que influenciam na formação de memórias.

“Os fusos do sono foram associados à formação de memória em seres humanos por algum tempo, mas ninguém sabia o que eles realmente estavam fazendo no cérebro. Agora sabemos que durante os fusos, caminhos específicos são ativados em dendritos, talvez permitindo que nossas memórias sejam reforçadas durante o sono. Nossos cérebros são órgãos incríveis e fascinantes, têm a capacidade de mudar e se adaptar com base em nossas experiências. Está cada vez mais claro que o sono desempenha um papel importante nessas mudanças adaptativas e nosso estudo mostra que uma grande proporção dessas mudanças pode ocorrer durante os fusos”, disse a líder do estudo, a pesquisadora Julie Seibt, da Universidade de Survey.

Os cientistas utilizaram ratos de laboratório para medir os níveis de íons Cálcio nos dendritos e mediram a frequência dos “fusos” por meio de um eletroencefalograma. Assim, puderam observar que o aumento do fluxo elétrico nos dendritos coincide com uma maior ocorrência de “fusos”. É quando acontece o processo de reorganização do cérebro, o que comprova os bons efeitos de uma noite bem dormida para a nossa cognição.

Sono ruim: impacto sobre o cérebro é o mesmo do provocado pelo álcool

Um importante e revelador estudo intitulado “Selective neuronal lapses precede human cognitive lapses following sleep deprivation” (“Lapsos neuronais seletivos precedem lapsos cognitivos humanos após a privação de sono”, numa tradução para o português), publicado na respeitada revista científica Nature, revela que noites mal dormidas podem ter como consequência lapsos de memória e uma percepção visual distorcida por uma falha de comunicação temporária entre neurônios. Segundo os pesquisadores que lideraram este estudo, os efeitos podem ser semelhantes a embriaguez.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, e da Universidade Tel Aviv, em Israel, com 12 voluntários com epilepsia. Foram implantados eletrodos no cérebro deles, para registrar com que frequências as convulsões aconteciam e onde se originavam. Optou-se por induzir convulsões pela privação do sono. Ou seja, os participantes tinham que ficar acordados durante a noite até que tivessem um episódio convulsivo, e precisavam realizar pequenas tarefas cognitivas, como ordenar imagens por categorias o mais rápido possível.

Os cientistas avaliaram a atividade cerebral do lobo temporal, associado à memória e ao reconhecimento visual. Quanto mais cansados e sonolentos, era mais difícil para os participantes realizar as tarefas. De acordo com os pesquisadores, a falta de sono reduz a capacidade de funcionamento dos nossos neurônios, o que pode causar lapsos na nossa cognição. A privação do sono, apontou a pesquisa, afeta a forma como os neurônios codificam as informações e como os estímulos visuais são lidos, algo muito semelhante às consequências do consumo de álcool.

Este grupo de pesquisadores está ampliando o estudo, dedicando-se, agora, a entender os mecanismos cerebrais responsáveis pelos lapsos de memória e de percepção e os benefícios que uma noite de sono com qualidade traz.

Os distúrbios do sono e a actigrafia

Obviamente que todos nós eventualmente temos uma noite de sono ruim, e sabemos muito bem como o dia seguinte fica mais difícil por conta disso. Mas quando isso acontece regularmente, é preciso investigar o que está acontecendo, e provavelmente a pessoa deve estar sendo acometida por algum distúrbio do sono. A principal causa de noites de sono irregulares é algum tipo de distúrbio do sono.

Um importante e revelador exame que pode ser solicitado pelo médico para quem apresenta algum tipo de distúrbio do sono é a actigrafia. Por meio do actígrafo, que na maior parte das vezes se assemelha a um relógio, é possível acompanhar os ciclos de atividade e de repouso, com captação, compilação e processamento de informações para estudo do ritmo do sono e da vigília e as consequências dos distúrbios de ritmo circadiano.

Actígrafos mais modernos conta com sensores de temperatura e luminosidade, permitindo uma maior profundidade da análise de dados. Este é um exame muito solicitado por médicos, principalmente médicos do sono, que pode ajudar a identificar o diagnóstico e, assim, apontar o tratamento a ser feito.

Conclusão

Não é preciso ser cientista, médico ou psicólogo para perceber o quão uma noite mal dormida (ou a privação do sono) nos faz mal. Mas a repetição desta condição pode afetar nossa saúde de uma forma até drástica. Ainda não se sabe exatamente por que uma noite de sono irregular afeta a nossa cognição, mas pesquisas identificaram essa relação direta entre cognição e sono.

A verdade é que uma noite de sono restaurador é fundamental para a nossa saúde, assim como é absolutamente relevante se alimentar bem e praticar exercícios físicos regularmente – todo médico concordará com isso, sem exceções. Os mais variados processos neurobiológicos que se processam durante o sono são fundamentais para a manutenção da nossa saúde física e cognitiva, incluindo, aí, a emoção e a memória. Estudos que relacionam cognição e sono: as influências que um sono ruim tem na cognição mostram que as pessoas privadas do sono tem significativa piora das atividades cognitivas, o que significa uma menor capacidade de desempenho.

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