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Efeito do Sono na Composição Corporal

Definição do sono

O sono é um estado comportamental e com características fisiológicas bem definidas. Semelhantemente à hibernação, imobilidade tônica, coma ou anestesia geral o sono é o único estado que apresenta simultâneamente capacidade de resposta reduzida, rápida reversibilidade e é homeostaticamente regulado (Anafi, Kayser, & Raizen, 2019). Durante o sono, o ser vivo fica fisicamente vulnerável, considerando a baixa à capacidade de resposta aos estímulos ambientais, além disso, durante o sono o ser vivo não come, bebe ou se reproduz.

Teorias de funções do sono

Mesmo com fatores negativos à sobrevivencia associados ao sono (maior vulnerabilidade), durante o sono acontecem eventos fisiológicos que contribuem para o adequado funcionamento do organismo. São propostas hipóteses de função cognitiva (Ex. aprendizagem, memória e plasticidade sináptica) (Veja: https://www.condorinst.com.br/cognicao-e-sono-as-influencias-que-um-sono-ruim-tem-na-cognicao/) e hipóteses de funções restauradoras (Ex. manutenção do metabolismo energético cerebral, biossíntese macromolecular e remoção de resíduos metabólicos) (Frank & Heller, 2019).  Apesar de ser exaustivamente estudado com mais de 200 mil artigos indexados no PubMed com o termo “Sleep”, em mais de 200 anos de pesquisa, o sono ainda continua a ser um enigma científico. Algumas perguntas ainda carecem de respostas: Por que as propriedades do sono mudam ao longo da vida? Por que e como o sono é regulado homeostaticamente? Por que o cérebro deve ser “desligado” para realizar as funções proposta? E, por que existem dois estágios diferentes do sono? (Frank & Heller, 2019). Considerado o último grande processo fisiológico ainda sem consenso quanto à sua função, já foram discutidas/especuladas na literatura algumas funções do sono I) função imunológica (veja: https://www.condorinst.com.br/sono-e-imunidade-2/), II) função restaurativa dos estoques de energia encefálica, III) função glifática, IV) função restaurativa do desempenho devido a degradação induzida pela atividade durante a vigília (veja: https://www.condorinst.com.br/fadiga-e-sono/), V) função conectiva ou plasticidade neural VI) função de conservação de energia pela redução do gasto calórico (Krueger, Frank, Wisor, & Roy, 2016).

Mecanismos de sono

O sono é regulado por influência de dois mecanismos distintos. O processo homeostático (S) e o processo circadiano (C). O processo S é caracterizado por propensão ao sono, causado pelo acúmulo de adenosina no prosencéfalo basal, decorrente da quebra de ATP ao longo do estado de vigília, resultando em sonolência e na necessidade de sono com o passar do tempo acordado (pressão homeostática para o sono) (Borbély, Daan, Wirz‐Justice, & Deboer, 2016). O processo C se refere às atividades biológicas que acontecem em períodos de aproximadamente 24 horas (ver: https://www.condorinst.com.br/as-consequencias-dos-disturbios-de-ritmo-circadiano-2/) e possibilita ao organismo humano uma antecipação e preparação para uma atividade ou momento do dia. Nossos ritmos são sincronizados através de pistas temporais conhecidos como “zeitgebers” (do alemão Zeit = tempo Gebers = doador – sincronizador biológico), que fornecem informações acerca do momento do dia. É importante destacar que, os ritmos circadianos não são governados pelo ambiente e possuem natureza autossustentada e mesmo na ausência de pistas temporais (livre curso) nosso organismo continua a apresentar ritmicidade circadiana (Mello, Bittencourt, Pires, Silva, & Tufik, 2008)

Privação de sono noturno

As demandas (sociais ou profissionais) associada a possibilidade de atividade no período noturno (trabalho ou lazer) fazem com que a nossa rotina seja arrastada para períodos em que poderíamos/deveríamos estar dormindo. Níveis altos de desalinhamento circadiano ocorrem em indivíduos que são forçadamente obrigados a alterar o seu ritmo de sono e vigília e que permanecem acordados durante a noite como trabalhadores por turnos ou praticantes de eletronic-sport (e-sport – pessoas que competem em jogos digitais) (Gomes, Narciso, de Mello, & Esteves, 2021). Esse comportamento de inversão de ritmo biológico com vigília na fase escura e sono na fase clara do dia pode apresentar riscos para a saúde (Moreno et al., 2019), cujos efeitos incluem impactos negativos na resposta metabólica (Zimberg, Fernandes Junior, Crispim, Tufik, & de Mello, 2012). Dessa forma podemos destacar que o sono em sua quantidade, qualidade e momento ideal (noite), exerce função essencial na saúde, tanto em seu aspecto físico quanto cognitivo

Efeito do sono na composição corporal

Ao permanecer acordado durante a noite e dormir durante o dia altera-se o ritmo biológico impactando em mudanças significativas no organismo. Permanecer acordado faz com que o organismo entenda que precisa poupar energia para um período de vigília mais longo, como adaptação ocorre uma redução do metabolismo basal que favorece o acúmulo de gordura corporal. Outros prejuízos associados a restrição de sono, podem ser observados pelo aumento dos níveis de concentração hormonal da grelina, bem como redução da leptina, responsáveis pelo controle do apetite e da saciedade (Taheri, Lin, Austin, Young, & Mignot, 2004). Dessa forma o organismo estimula o aumento da ingestão de alimentos que pode resultar em aumento da massa corporal.

A atrofia muscular e a redução na capacidade de recuperação muscular também estão associadas a restrição e privação de sono noturno. Foi formulada uma hipótese de que a atrofia muscular causada pela perda de sono está associada a redução de hormônios anabólicos e aumento de hormônios catabólicos (Dattilo et al., 2011). De forma geral, quando não se tem um sono adequado, o cansaço, a sonolência e a fadiga são fatores evidentes que reduzem o desempenho físico, reduzindo os níveis de atividade física e o desempenho nas ações da vida diária que podem favorecer inclusive ao sedentarismo (Mollicone, Van Dongen, Rogers, Banks, & Dinges, 2010). Considerando o exposto, pessoas que invertem seu ritmo de sono e vigília como trabalhadores de turnos noturno e rotativo, praticantes de e-sports sofrem os prejuízos causados pela privação de sono noturno e dessincronização do ritmo vigília/sono, com mudanças na produção hormonal que favorecem o aumento da ingestão calórica, acúmulo de energia e redução da atividade física que prejudicam a composição corporal.

A mudança do ritmo biológico proporciona maior chance de aumento do IMC, devido a mudanças nos hábitos alimentares, rotina diária e metabolismo energético. Um estudo epidemiológico identificou que pessoas que permanecem acordadas de noite e dormem durante o dia apresentam 1,5 vezes mais chance de estar acima do peso do que aqueles que dormem de noite (Hulsegge, van Mechelen, Paagman, Proper, & Anema, 2020). A privação de sono noturno mostrou associações significativas com o aumento do IMC proporcional às horas de sono perdidas. Foi observado aumento de 0,43 kg / m2 a cada 10.000 horas acordados durante a noite (Peplonska, Bukowska, & Sobala, 2015). Foi destacado ainda chances 3,9 maior quando há restrição de sono noturno por oito ou mais dias por mês.

            Aparentemente apenas os comportamentos considerados saudáveis como,  a prática de atividade física, a qualidade do sono e os hábitos alimentares, não são suficientes para moderar a relação entre trabalho por turnos e excesso de peso, enquanto que os anos de exposição ao trabalho por turnos pode ser um fator moderador (Hulsegge et al., 2020). Assim, apenas os comportamentos de estilo de vida saudáveis podem, não ser suficientes para “proteger” contra os efeitos negativos da privação de sono noturno sobre o excesso de peso. Por outro lado, a obesidade é multifacetada e pode ser influenciada por determinantes sociais, de renda, nível educacional, conhecimento em saúde e apoio social (McGlynn et al., 2015).

Conclusão

As consequências da privação de sono noturno associado a mudança de ritmo circadiano impactam não somente a composição corporal como a saúde de um modo geral.

Quando a privação do sono noturno não é ocasionada por força maior (trabalho noturno), é preciso promover mudanças nos hábitos de vida, em especial com a higiene do sono (evitar estimulantes, como cafeína no período noturno), manter horário regular de sono, evitar luzes artificiais durante o período noturno. Além disso a prática regular de exercício físico e alimentação saudável podem auxiliar no processo. Em alguns casos o pode ser necessário recorrer ao uso de fármacos, sempre com o devido acompanhamento médico. A actigrafia (Veja: https://www.condorinst.com.br/o-que-e-actigrafia/) pode ser um método de acompanhamento do ritmo biológico, indicando a regularidade dos horários de dormir e acordar. Além disso é possível avaliar o sono por vários dias e indicar o tempo total de sono bem como a eficiência do sono que podem ser informações importantes para tomada de decisões e um melhor direcionamento do efeito das intervenções que forem realizadas

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