© 2021 Condor, All Rights Reserved

Fadiga e sono

Introdução

O sono é fundamental para a manutenção e promoção da vida, sendo o momento em que o corpo recupera processos cognitivos, físicos e metabólicos (Van Cauter et al., 2007.. O sono é regido por fatores circadianos (para maiores informações, veja: https://condorinst.com.br/o-que-e-ritmo-circadiano/) e homeostáticos, de forma que a maior propensão ao sono ocorre quando o acúmulo de pressão homeostática coincide com o momento de propensão circadiana ao sono, geralmente no período noturno e também ao meio dia (Borbély et al., 2016).

A restrição e privação de sono estão associadas a diversos prejuízos à saúde e segurança, como pior desempenho cognitivo (tempo de reação aumentado, pior capacidade de tomada de decisões, controle inibitório afetado, entre outros) (Frey et al., 2004), assim como gera prejuízos hormonais e metabólicos, como por exemplo a desregulação dos hormônios grelina e leptina, e maior propensão a doenças cardiometabólicas, como diabetes e hipertensão (Bryant et al., 2004). Assim, estas condições aumentam a probabilidade de ocorrência de acidentes e erros no ambiente de trabalho e no trânsito.

A qualidade e quantidade do sono podem ser impactados negativamente pelos distúrbios de sono, aumentando os níveis de fadiga e sonolência diurna. Grande parte da população é afetada por distúrbios de sono como a apneia obstrutiva do sono (para maiores informações, veja https://condorinst.com.br/disturbios-do-sono/) (Tufik et al., 2010), o que nos mostra que o nível de sonolência e fadiga podem se tornar um problema para a sociedade e devem ser avaliados criteriosamente.

Fadiga

De forma geral, a fadiga é um processo complexo e multifatorial, que pode ser definida como a redução das capacidades físicas e mentais de um indivíduo, resultando em dificuldade para realização de tarefas e da eficiência em responder a estímulos. Considerando o aspecto multifatorial da fadiga, podemos classificá-la em física, mental e emocional, de forma que:

  • Fadiga emocional: representa o cansaço emocional e a redução da capacidade de se envolver em atividades emocionais.
  • Fadiga mental: geralmente ocorre após prolongado período de manutenção de atividades mentais ou atividades altamente estressantes. Caracteriza-se pela redução da capacidade de se envolver em atividades cognitivas.
  • Fadiga física: ocorre após prolongado período de contração muscular isométrica ou repetidas contrações musculares isotônicas, e resulta em dificuldade de se realizar atividades físicas.

Além disso, algumas pessoas também podem ser acometidas pela Síndrome da Fadiga Crônica, caracterizado por intensa sensação de cansaço persistente, dores musculares, distúrbios de humor, distúrbios de sono e comprometimento cognitivo com duração igual ou maior que 6 meses, o que acarreta reduzida capacidade de executar atividades físicas e cognitivas. A sensação de fadiga provocada por esta síndrome não é causada por estímulos agudos e não melhora com o repouso, impactando substancialmente na capacidade produtiva de um indivíduo. Esta síndrome pode ser causada por alterações em funções imunológicas, neuroendócrinas e autonômicas.

Causas da fadiga

Dado o componente complexo e multifatorial da fadiga, esta apresenta diversas causas que podem interagir intensificando ou atenuando o processo de fadiga. Podemos dividir os fatores que levam à fadiga em condições do trabalho, condições do indivíduo, e desempenho do indivíduo no trabalho.

Condições do trabalho

Se refere aos aspectos logísticos e organização da escala de trabalho, como a duração do turno, momento em que o turno de trabalho ocorre, característica de rotação e intervalos durante a jornada e entre jornadas de trabalho, além das características inerentes ao local de trabalho e relações dos trabalhadores.

A duração do turno de trabalho impacta significativamente no aparecimento de fadiga pois pode ocupar parte do tempo destinado ao descanso e lazer. Contudo, a percepção do trabalhador em relação ao trabalho também apresenta grande interferência, pois um trabalho visto como prazeroso e realizado de forma consciente, apresenta menores chances de causar fadiga, mesmo em durações maiores. Contudo, é importante condensar todo o trabalho em menos de 60 horas semanais, pois as evidências apontam que, acima deste volume de trabalho, o impacto no lazer e descanso se torna inevitável (Techera et al., 2016). Além disso, o risco para acidentes aumenta de forma exponencial em turnos de trabalho com duração maiores que 8 horas, de forma que turnos com duração de 12 horas de trabalho apresentam quase o dobro de risco para acidentes quando comparados a turnos de 5 horas (Folkard e Tucker, 2003). Assim, devem ser estabelecidos intervalos durante a jornada de trabalho e folgas entre as jornadas de trabalho que possibilitem a completa dissipação do processo de fadiga que foi acumulado durante o período de trabalho.

Considerando que os seres humanos apresentam ritmicidade circadiana em diversas funções biológicas, o momento em que o trabalho ocorre também se relaciona ao aparecimento de fadiga. Assim, turnos matutinos e noturnos tendem a contribuir mais para o desenvolvimento de fadiga, pois impedem que o processo de recuperação ocorra de maneira plena. Por exemplo, indivíduos que precisam acordar muito cedo para trabalhar (03h ou 04h da madrugada) tornam-se privados de uma parte importante da noite de sono, o que impacta em seus níveis de fadiga. Por outro lado, trabalhadores do turno noturno precisam realizar seu período de sono durante o ciclo claro do dia, o que também impede a obtenção de um sono pleno e reparador devido às características circadianas (temperatura central elevada e ausência de melatonina) (Sallinen e Kecklund, 2010).

Por outro lado, as características intrínsecas do local de trabalho como temperatura e ruídos também devem ser analisadas. Ambientes com altos índices de ruídos intermitentes ou constantes contribuem para o aparecimento de fadiga (Kjellberg et al., 1998). Não somente, ambientes com temperatura extrema, seja ela calor ou frio, características da iluminação, ergonomia e condições de pressão exercem o mesmo efeito (Krause et al., 1997). Além disso, as relações no local de trabalho devem ser as mais saudáveis possíveis, evitando que competição excessiva e presença de bullying acarrete um processo de fadiga desnecessário.

Condições do indivíduo

            Refere-se às características pessoais e aos hábitos de vida de cada indivíduo, como a prática regular de atividades físicas, a adesão a uma alimentação saudável e balanceada, engajamento em atividades de lazer, o uso de medicamentos, o padrão de sono e presença de distúrbios de sono, cronotipo, tolerância e formas de lidar com o estresse, e o ambiente familiar. Todas estas condições se relacionam e, assim, quanto maior for a presença de variáveis positivas, assim como o apoio familiar, menor será a tendência ao surgimento de fadiga.

Desempenho do indivíduo no trabalho

            Refere-se às características físicas e cognitivas desempenhadas pelo indivíduo, como por exemplo o tempo de reação, capacidade de tomada de decisão, sensibilização emocional, capacidade de memória e vigilância sustentada.

Influência do sono no processo de fadiga

O sono tem-se mostrado como o principal deflagrador do processo de fadiga. Quanto maior o tempo acordado, maiores serão os prejuízos observados. Desta maneira, em relação ao desempenho psicomotor, ficar 17 horas acordado equivale a uma concentração sanguínea de 0,05% de álcool, enquanto ficar 24 horas acordado equivale a uma concentração sanguínea de 0,10% de álcool (Dawson e Reid, 1997).

Neste aspecto, a recomendação de tempo total de sono para a maioria da população é de mais de 7 horas por noite. Contudo, existem os curtos dormidores, que se sentem satisfeitos dormindo entre 4 e 6 horas, enquanto existem os longos dormidores, que necessitam de dormir entre 10h e até 12 horas para se sentirem plenamente recuperados. Estes estão no extremo da população, de forma que a grande maioria da população necessita dormir entre 7 e 8 horas para se recuperar completamente. Assim, é fundamental que a quantidade de sono desejada seja obtida para evitar que a fadiga se acumule.  

Consequências da fadiga

Os custos financeiros decorrentes da fadiga são significativos. Estima-se que, no Brasil, cerca de 45 mil pessoas morrem a cada ano vítimas de acidentes de trânsito, sendo este o principal causador de óbitos no país (Carvalho, 2020). Em termos financeiros, estes acidentes representam custo de R$ 50 bilhões a cada ano, representados pela perda da força de trabalho das vítimas, além de internações hospitalares. Neste aspecto, os acidentes de trânsito relacionados à fadiga e sonolência comumente acompanham óbitos e, quando o óbito não ocorre, há a probabilidade de o acidente ser mais grave (Stahl e Sigua, 2020). Por este motivo, o tratamento de distúrbios de sono deve se tornar prioridade para aqueles que sofrem destes males. Não somente, trabalhadores fadigados apresentam pior desempenho no trabalho e adoecem com maior frequência, o que gera absenteísmo que também acarreta um custo financeiro importante e que, geralmente, é sustentado pela população (Godet-Cayré, 2006).

            No âmbito esportivo, a pressão para resultados e evolução do desempenho é constante, sendo este um dos fatores que contribui para a má qualidade de sono entre os atletas – além de uso de aparelhos eletrônicos durante a noite, viagens para competir, dores musculares decorrentes dos treinamentos físicos, dormir em quartos desconhecidos, dentre outros. As consequências do débito de sono nesta população se representam através de queda do desempenho esportivo, assim como maior risco ao desenvolvimento de lesões, o que gera afastamentos e prejuízos financeiros para o atleta e clube de origem (Hägglund et al., 2013).

            Estudantes também se prejudicam quando se encontram em níveis de fadiga elevados. Dada a importante função de consolidação da memória do sono, estudantes que não atingem o tempo total de sono desejado apresentam pior desempenho acadêmico (Curcio et al., 2006).      

Avaliação da fadiga

Dada a complexidade e característica multifatorial da fadiga, este constructo é quase inviável de ser avaliado objetivamente. Não somente, a distinção entre fadiga aguda e fadiga crônica torna-se um complicador, já que a fadiga aguda apresenta diversas manifestações, ao passo que a fadiga crônica apresenta características bem definidas na literatura científica. Assim, o nível de sonolência pode ser utilizado como parâmetro para estimar o nível de fadiga, e é frequentemente utilizada no ambiente de trabalho por ser uma avaliação rápida e de fácil aplicação (Gates et al., 2018) Além disso, no ambiente de trabalho, o foco da avaliação de fadiga deve ser a redução de acidentes e manutenção do desempenho, enquanto no ambiente esportivo o foco deve ser manutenção do desempenho, e redução da probabilidade de ocorrência de lesões.

            Portanto, como o sono tem se mostrado o principal fator que interfere no nível de fadiga, pode-se entender que aqueles trabalhadores e atletas que apresentam má qualidade de sono e tempo total de sono insuficiente encontram-se em maior risco de desenvolvimento de fadiga. Assim, torna-se essencial a avaliação da qualidade de sono destas populações. Neste aspecto, a actigrafia é uma técnica útil e não invasiva que pode ser utilizada para avaliação do sono e ritmos biológicos (Sadeh, 2011). O actígrafo é um equipamento semelhante a um relógio de punho e contém sensores de movimento, luz e, em alguns modelos mais modernos, sensores de temperatura. A análise dos dados permite a obtenção de variáveis como o tempo total de sono, eficiência do sono (relação entre o tempo de cama e tempo em que o indivíduo realmente dormiu), latência para início de sono (tempo decorrido entre a intenção de dormir e início do sono), tempo acordado após início do sono e tempo total em vigília. Para maiores informações, veja https://condorinst.com.br/o-que-e-actigrafia/.

Conclusão

A fadiga é um processo multifatorial, complexo e de difícil mensuração, que pode causar prejuízos substanciais para o ambiente de trabalho, esportivo e acadêmico. Portanto, é fundamental encontrar formas de mitigar e reduzir a ocorrência de fadiga. Contudo, avaliar objetivamente a fadiga é quase inviável, dada suas características multifatoriais. Assim, pode-se utilizar o nível de sonolência diurna e o tempo total de sono como base para estimar o nível de fadiga dos indivíduos e, para avaliação do sono, a actigrafia é uma técnica útil e válida

https://www.condorinst.com.br/
pt_BR

Deixe seu dados que entraremos em contato