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Melatonina: qual é sua relação com o sono e ritmos biológicos?

A melatonina é um hormônio presente em praticamente todos os organismos vivos e sua produção ocorre na glândula pineal, sendo então secretada no sangue, e em seguida atuando como hormônio (AMARAL; CIPOLLA-NETO, 2018). O sistema de temporização circadiano exerce controle sobre sua produção, de forma que, na presença de luz, sua produção é inibida e, por outro lado, na ausência de luz, sua produção é estimulada. Assim, sua síntese é alinhada ao ciclo claro-escuro. Seus efeitos no organismo são diversos e podem ser observados mesmo quando não há mais melatonina presente no organismo, fator que dificulta a delimitação de funções como em outros hormônios (CIPOLLA-NETO; AMARAL, 2018). Para o propósito deste artigo, serão abordados os efeitos que a melatonina exerce no sono e ritmos biológicos, bem como algumas condições que podem interferir em sua síntese.

Devido ao seu componente circadiano, a concentração de melatonina aumenta durante a noite e decresce durante o dia, e por isso foi construída a ideia de que ela é um hormônio do sono. Contudo, esta afirmação é um erro. Em espécies noturnas, isto é, em espécies cujo período de atividade se concentra durante a fase escura do dia, é possível observar que a curva de melatonina segue o mesmo padrão de espécies diurnas (seres humanos, por exemplo). De forma curiosa, a melatonina apresenta efeitos de auxiliar na indução de sono somente em espécies predominantemente diurnas (CIPOLLA-NETO; AMARAL, 2018; LIU; WEAVER; JIN; SHEARMAN et al., 1997).

Ao dormir durante a fase clara do dia, quando não há muita melatonina no organismo, o sono apresenta arquitetura mais fragmentada e com menor duração. Além disso, ao bloquear a secreção de melatonina durante a noite, seja através de intervenção farmacológica ou luminosa, o mesmo padrão fragmentado é observado (CAJOCHEN; KRÄUCHI; DANILENKO; WIRZ-JUSTICE, 1998; VAN DEN HEUVEL; REID; DAWSON, 1997). Obviamente, ao tentar dormir durante o dia existem outros componentes que influenciarão na qualidade e duração do sono, como a temperatura central elevada e maior concentração de cortisol, mas estes resultados demonstram o potencial da melatonina em induzir e melhorar a qualidade de sono. Estudos realizados com seres humanos pinealectomizados reforçam estes dados. Estes pacientes, em geral, apresentam ritmos dessincronizados com o ciclo claro-escuro de 24 horas, redução do tempo total de sono, alto volume de despertares durante a noite e baixa qualidade do sono. Na maioria dos casos, estes sintomas foram revertidos com administração de melatonina exógena (ETZIONI; LUBOSHITZKY; TIOSANO; BEN-HARUSH et al., 1996; LEHMANN; COCKERELL; RUDGE, 1996). Uma revisão sistemática conduzida por Brzezinski e colaboradores buscou avaliar os efeitos da administração de melatonina exógena em parâmetros do sono. Os resultados demonstram redução da latência para início de sono, bem como aumento do tempo total de sono e eficiência de sono (BRZEZINSKI; VANGEL; WURTMAN; NORRIE et al., 2005). Além disso, como mencionado por Cipolla Neto, a maioria dos estudos padroniza a dosagem de melatonina utilizada, e isto pode reduzir o tamanho do efeito observado (CIPOLLA-NETO; AMARAL, 2018).

Outra função importante da melatonina é a de regulação do ciclo vigília-sono. Este papel como cronobiótico pode ser utilizado para a regulação de distúrbios de ritmo, como a síndrome da fase atrasada/avançada de sono e o ritmo não 24 horas. É necessário observar o objetivo pretendido para então definir o horário de sua ingestão. Ao realizar a ingestão no início da noite, ocorre avanço da fase do sono. Por outro lado, ao realizar a ingestão no final da noite, ocorre atraso da fase de sono. É observado também uma “zona morta”, em que não são observadas adaptações relacionadas ao ritmo quando se realiza a ingestão neste momento. Esta zona está localizada no meio da noite, quando geralmente ocorre a acrofase da melatonina (CIPOLLA-NETO; AMARAL, 2018).

Condições que causam a redução da concentração de melatonina endógena

            Algumas condições afetam a produção de melatonina, tanto para mais quanto para menos. Do ponto de vista clínico, a disfunção na produção de melatonina pode ser classificada como:

  • Hipomelatoninemia: quando a produção do hormônio se encontra reduzida em relação à idade e pode ser classificada como primária, quando fatores afetam diretamente a glândula pineal, ou secundária quando ocorre a partir de eventos primários, como doenças sistêmicas (hiperglicemia, por exemplo) ou fatores ambientais (luz durante a noite).
  • Hipermelatoninemia. Ocorre quando a produção é excessiva, e geralmente está associada a outras doenças, como anorexia nervosa (ARENDT; BHANJI; FRANEY; MATTINGLY, 1992), síndrome do ovário policístico (TARQUINI; BRUNI; PERFETTO; BIGOZZI et al., 1996), hipogonadismo hipogonadotrófico (LUBOSHITZKY; SHEN-ORR; ISHAI; LAVIE, 2000).

Além disso, outras condições podem afetar a produção de melatonina, como lesão medular cervical (SCHEER; ZEITZER; AYAS; BROWN et al., 2006) e deficiência visual com interrupção na percepção de luz (LOCKLEY; SKENE; JAMES; THAPAN et al., 2000).

Farmacocinética e dosagem

            A farmacocinética da melatonina depende da forma de ingestão (oral, liberação rápida/lenta, intravenosa, spray nasal, supositório anal, entre outros) e da absorção individual, bem como da atividade enzimática no fígado. A dose deve ser ajustada para cada indivíduo de forma personalizada, de forma a evitar sonolência diurna e pesadelos durante a noite (AMARAL; CIPOLLA-NETO, 2018).

Avaliação de ritmos biológicos

            Quando o objetivo da utilização de melatonina for a regulação do ciclo vigília-sono, bem como a melhoria em aspectos de sono, a actigrafia, técnica padrão ouro para avaliação de ritmos biológicos, pode ser utilizada. O actígrafo da CONDOR conta com sensores de luz, movimento e temperatura corporal e, a partir destes sensores, é possível analisar variáveis relacionadas ao sono, como tempo total de sono, eficiência de sono, latência para início de sono e despertares após o início de sono, bem como variáveis relacionadas ao ritmo biológico, como cosinor, espectograma, períodograma e análises não paramétricas (L5, M10, IV e IS). Assim, é possível realizar o acompanhamento do paciente de forma objetiva e não invasiva.

Conclusão

A administração de melatonina é eficaz para melhorar a qualidade de sono, aumentar o tempo total de sono, eficiência de sono e reduzir a latência para início de sono. Além disso, também pode ser utilizada para tratamento de distúrbios de ritmo biológico. Atualmente, há diversas formas de se consumir melatonina exógena, e a opção a ser utilizada, bem como a dosagem aplicada, deve ser definida pelo médico.

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