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Relação entre dor e sono

Dormir é uma necessidade biológica, e sua importância na promoção da qualidade de vida e bem-estar está bem documentado. Assim, a privação de sono acarreta fadiga, sonolência diurna excessiva e prejuízos cognitivos (como por exemplo fluência verbal, memória, tomada de decisão e tempo de reação)(BLOOM; AHMED; ALESSI; ANCOLI-ISRAEL et al., 2009). Dentre os fatores que acarretam privação e restrição de sono, a dor persistente é uma das razões mais comuns (BRENNAN; LIEBERMAN, 2009). Assim, muitos pacientes acreditam que os problemas de sono experimentados por eles são decorrentes da dor que sentem (HAWKER; STEWART; FRENCH; CIBERE et al., 2008). Ainda, muitos pacientes acreditam que a dor desaparecerá quando o problema de sono for resolvido (MORIN; GIBSON; WADE, 1998). Portanto, o objetivo deste artigo é demonstrar as relações existentes entre dor e problemas com o sono.  

Relações entre sono e dor 

A privação de sono leva a alterações no processamento da dor, de forma que restrição de sono crônica aumenta à sensibilidade à dor (KUNDERMANN; KRIEG; SCHREIBER; LAUTENBACHER, 2004). Por exemplo, indivíduos saudáveis relataram amplificação da dor após 2 noites de restrição de sono (cujo sono noturno foi restrito em 4h), e a intensidade da dor percebida aumentou com o número de noites em restrição de sono (HAACK; MULLINGTON, 2005). Em sete indivíduos saudáveis, a restrição de sono e restrição de sono REM causou hiperalgesia no dia seguinte (ROEHRS; HYDE; BLAISDELL; GREENWALD et al., 2006). Estes autores concluem que é importante ter cautela com a administração de medicamentos que reduzam tanto o tempo total de sono e/ou a proporção de sono REM durante a noite, visto que isto pode aumentar a sensibilidade à dor dos indivíduos.  

Assim, estas evidências indicam que atuar com foco em melhorar a qualidade de sono pode ser uma estratégia eficaz para atenuar a dor nestes pacientes. Ainda, o sono de boa qualidade é tido como importante na resolução da dor persistente (DAVIES; MACFARLANE; NICHOLL; DICKENS et al., 2008) e, além disso, pacientes com dor persistente que são bons dormidores relatam menos dor durante a noite (ASHWORTH; DAVIDSON; ESPIE, 2010). Assim, sono e dor se relacionam diretamente quando um ou outro aumenta ou diminui.  

Efeitos da dor no sono  

A insônia é definida como latência para início de sono maior que 30 minutos e/ou um despertar noturno maior que 30 minutos com frequência igual ou maior a 3 dias por semana e duração igual ou maior que 3 meses (SATEIA, 2014). A insônia é altamente prevalente em pacientes com dor crônica, de forma que 53 a 90% apresentam algum grau de insônia clínica (TANG; WRIGHT; SALKOVSKIS, 2007) Por exemplo, pacientes com dor crônica nas costas apresentam probabilidade 18 vezes maior de ter insônia do que pessoas sem dor nas costas.  

Ainda, a dor constante gera transtornos e alterações no estilo da vida da pessoa que, em última instância, resultam em piora da qualidade de sono. Por exemplo, pacientes com dor crônica frequentemente apresentam redução dos níveis de atividade física no dia a dia, aumento do tempo de cama e de cochilos durante o dia. Este padrão de atividade pode promover e perpetuar a insônia através do condicionamento (SPIELMAN; SASKIN; THORPY, 1987). Em um estudo transversal conduzido em pacientes com osteoartrite de quadril aguardando artroplastia de quadril, mais de 50% destes pacientes sofriam de insônia. Por outro lado, a redução da dor melhorou a qualidade de sono em metade destes pacientes (BLÅGESTAD; PALLESEN; GRØNLI; TANG et al., 2016). O mesmo fato foi observado em pacientes com artrite reumatoide, suportando o impacto da restrição de sono na severidade da dor (IRWIN; OLMSTEAD; CARRILLO; SADEGHI et al., 2012). Além disso, a dor crônica se associa a outras condições de saúde, como risco aumentado para desenvolvimento de depressão, uso frequente de medicamentos, baixa qualidade de vida e maior utilização do sistema de saúde (BLAY; ANDREOLI; GASTAL, 2007).  

Gestão da dor crônica e distúrbios de sono 

Apesar do crescente aumento da literatura científica envolvendo o tema do sono em pacientes com dor crônica, muitos programas de tratamento da dor utilizam medicamentos analgésicos e/ou hipnóticos para o tratamento de comorbidades como a insônia (TANG; WRIGHT; SALKOVSKIS, 2007). Estes medicamentos incluem anticonvulsivantes, benzodiazepínicos e não benzodiazepínicos, e antidepressivos tricíclicos. Contudo, é importante ter cautela quanto à administração destes medicamentos, visto que possuem efeitos colaterais. Por exemplo, a utilização de medicamentos hipnóticos está relacionada a efeitos colaterais como sedação, sonolência diurna excessiva, tontura, dor de cabeça, e prejuízos cognitivos e psicomotores (HOLBROOK; CROWTHER; LOTTER; CHENG et al., 2000). Além disso, há evidências demonstrando que a medicação em pessoas com dor de cabeça ou dor musculoesquelética pode piorar o sono e, desta forma, aumentar a sensação de dor (DOUFAS; PANAGIOTOU; IOANNIDIS, 2012). Assim, é importante que a condição do paciente seja analisada e a raiz da dor seja tratada de forma eficaz e, em paralelo, se necessário, seja administrada uma medicação que promova o menor malefício possível. 

Conclusão 

A grande maioria dos pacientes com dor crônica apresentam algum grau de comprometimento durante o sono. Por outro lado, a restrição de sono acarreta um agravamento na percepção da dor. Assim, estes pacientes merecem um tratamento diferenciado que aborde tanto a raiz da dor quanto os distúrbios de sono existentes. Por fim, é necessário ter cautela quanto à utilização de medicamentos hipnóticos, visto que os possíveis efeitos colaterais podem impactar diretamente no dia a dia destes pacientes.  

Como avaliar o sono? 

A actigrafia é uma técnica que pode ser utilizada para avaliar o padrão de sono e do ritmo vigília-sono. O actígrafo é um dispositivo semelhante a um relógio de punho que contém sensores de luz, movimento e temperatura. Assim, através destas informações, é possível extrair dados a respeito de variáveis como tempo total de sono, latência para início do sono, tempo acordado após início do sono, eficiência de sono, tempo em vigília e variáveis relacionadas ao ritmo, como cosinor, espectograma, periodograma, e variáveis não paramétricas como L5, M10, IS e IV.  

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