© 2021 Condor, All Rights Reserved

Sono e Metabolismo

Por diversas razões relacionadas ao trabalho, estudo, lazer e família, os indivíduos dormem cada vez menos. Não somente, o índice de distúrbios de sono em megalópoles como São Paulo é altíssimo. Resultados do EPISONO, estudo epidemiológico que realiza rastreio de queixas e distúrbios de sono na cidade de São Paulo, indicam que em torno de 45% da população apresenta alguma queixa de insônia ou dificuldade para dormir (CASTRO; POYARES; LEGER; BITTENCOURT et al., 2013), e 33% da população possui apneia obstrutiva de sono (TUFIK; SANTOS-SILVA; TADDEI; BITTENCOURT, 2010). Além disso, mesmo se formos considerar indivíduos saudáveis e sem distúrbios de sono, o envelhecimento natural acarreta redução do tempo total de sono e qualidade de sono, caracterizada por maior fragmentação do período de sono (VAN CAUTER; LEPROULT; PLAT, 2000). Portanto, considerando a magnitude de pessoas acometidas por sono de má qualidade e duração insuficientes, o objetivo deste artigo é elucidar as relações entre sono, privação/restrição de sono e metabolismo.

Regulação hormonal

Durante o sono ocorrem diversas reações importantes para o organismo. Especificamente, durante o sono de ondas lentas ocorre redução da pressão arterial, frequência cardíaca, redução da atividade simpática do sistema nervoso central e aumento da atividade parassimpática (SOMERS; DYKEN; MARK; ABBOUD, 1993), bem como redução do metabolismo de glicose (ZOCCOLI; WALKER; LENZI; FRANZINI, 2002). Além disso, a liberação de hormônios do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, como o cortisol, é inibida, enquanto a liberação de hormônio do crescimento (GH) e prolactina é aumentada (FRIESS; WIEDEMANN; STEIGER; HOLSBOER, 1995). Ambos os hormônios, GH e cortisol, apresentam impacto importante na regulação da glicose. O envelhecimento reduz a proporção de sono de ondas lentas, e esta redução se associa à redução da secreção de GH entre a juventude e meia idade, bem como entre a meia idade e senescência, sendo que esta redução na secreção de GH foi associada à redução do sono de ondas lentas independentemente da idade. Em 2011, Le Proult e Van Cauter demonstraram o efeito de uma semana de restrição de sono nos níveis de testosterona sérica em 10 homens adultos e saudáveis (LEPROULT; VAN CAUTER, 2011). Os resultados demonstraram que os níveis de testosterona foram reduzidos em 10 a 15% em relação aos níveis basais após o período de restrição de sono de 5 horas por noite. Além disso, esta redução foi correlacionada a menores níveis de vigor. Para efeito de comparação, o envelhecimento natural acarreta redução dos níveis de testosterona em uma proporção de 1 a 2% por ano. Considerando que os sintomas de deficiência androgênica incluem baixos níveis de energia, libido reduzida, problemas de concentração e sonolência aumentada, isto se torna um grande problema na população.

Considerando estes fatos, é de se esperar que o impacto na regulação da glicose gere consequências negativas no organismo. Durante períodos de restrição de sono, ocorre redução significativa da tolerância à glicose em comparação à períodos de descanso total (SPIEGEL; LEPROULT; VAN CAUTER, 1999). Evidências indicam que redução do sono de ondas lentas em indivíduos saudáveis acarreta redução da sensibilidade à insulina, redução da tolerância à glicose e maior risco para desenvolvimento de diabetes tipo II (TASALI; LEPROULT; EHRMANN; VAN CAUTER, 2008). Estes dados são corroborados por estudos epidemiológicos, indicando que indivíduos que dormem menos estão mais expostos ao desenvolvimento de diabetes. Um estudo prospectivo com duração de 10 anos avaliou 70.026 mulheres e demonstrou que as voluntárias que dormiam 5 horas ou menos por noite apresentaram maior risco para desenvolvimento de diabetes do que as voluntárias que dormiam 8 horas por noite (AYAS; WHITE; AL-DELAIMY; MANSON et al., 2003).

Duração do sono e regulação do apetite

A ingestão de alimentos é regulada pelo sistema neuroendócrino. O hormônio leptina exerce efeito inibitório na ingestão de alimentos (saciedade) e aumentam o gasto calórico (SCHWARTZ; MORTON, 2002). Por outro lado, a grelina é um hormônio secretado pelo estômago que estimula o apetite. Em condições saudáveis, os níveis de grelina aumentam logo antes das refeições e são reduzidos logo após a ingestão de alimento. Estudos demonstram que a restrição de sono crônica está associada à redução dos níveis de leptina e aumento dos níveis de grelina (SPIEGEL; TASALI; PENEV; VAN CAUTER, 2004). Além disso, o aumento da relação grelina/leptina está correlacionado a maior apetite, principalmente para alimentos ricos em carboidrato (SPIEGEL; TASALI; PENEV; VAN CAUTER, 2004). Por fim, a redução dos níveis de leptina observados após restrição de sono é similar à redução observada após restrição energética de 70% (redução dos níveis de leptina de 26% e 22%, respectivamente).

Por fim, pesquisadores da área concordam que o aumento nas taxas de obesidade populacional não se explica somente através dos hábitos alimentares e de exercício físico. Estudos populacionais envolvendo quase mil adultos (CHAPUT; DESPRÉS; BOUCHARD; TREMBLAY, 2007) e 10 mil crianças (SEKINE; YAMAGAMI; HANDA; SAITO et al., 2002) indicam que o tempo total de sono é um importante fator de risco para desenvolvimento da obesidade. Evidências indicam que os níveis de adiposidade e obesidade se encontram reduzidos nos indivíduos que dormem 7-8 horas por noite, em comparação àqueles que dormem 5-6 horas (CHAPUT; DESPRÉS; BOUCHARD; TREMBLAY, 2007).

Conclusão

As evidências científicas indicam que o sono é importante para a regulação de diversos processos metabólicos, de forma que a restrição de sono aumenta a probabilidade de desenvolvimento de doenças metabólicas como diabetes e obesidade. Estes efeitos deletérios ocorrem através de diversos fatores, dentre eles o desequilíbrio entre os hormônios chave para a regulação do apetite: leptina e grelina, além de alterações no metabolismo da glicose. Considerando estes prejuízos observados, é importante que os indivíduos sejam conscientizados a respeito da importância do sono, bem como recebam suporte visando desenvolver estratégias para modificar positivamente a qualidade e duração de sono.

Avaliação do padrão de sono

A actigrafia é uma técnica não invasiva que pode ser utilizada para avaliar o padrão de sono e do ritmo vigília-sono. O actígrafo é um dispositivo semelhante a um relógio de punho que contém sensores de luz, movimento e temperatura. Assim, através destas informações, é possível extrair dados a respeito de variáveis como tempo total de sono, latência para início do sono, tempo acordado após início do sono, eficiência de sono, tempo em vigília e variáveis relacionadas ao ritmo, como cosinor, espectograma, periodograma, e variáveis não paramétricas como L5, M10, IS e IV.

https://www.condorinst.com.br/

pt_BR

Deixe seu dados que entraremos em contato