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Terapia de luz e ritmos biológicos

O organismo dos seres vivos é regido por oscilações circadianas. Nos seres humanos, estas oscilações são controladas pelo núcleo supraquiasmático (NSQ) localizado no hipotálamo. Assim, o NSQ regula a expressão de genes em todos os relógios periféricos, direcionando o controle de todas as funções do organismo, como a produção de células do sistema imunológico, secreção hormonal e regulação do ciclo vigília-sono. Para mais informações, leia https://www.condorinst.com.br/o-que-ritmo-circadiano/.

O ciclo vigília-sono é regulado por diversos sincronizadores como o exercício físico, rotinas sociais de trabalho e estudo, alimentação e a luz. As melanopsinas, células fotorecpetoras localizadas na retina, captam a luz e transmitem esta informação até o NSQ através do trato retino hipotalâmico. Assim, a luz é a informação mais poderosa para a regulação dos ritmos circadianos

Os seres humanos se adaptaram à luz e o organismo entende que durante o dia é o momento de vigília e, durante a noite, quando há ausência de luz, é momento de repouso. Esta regulação é complexa e dependente da ativação de vários genes e hormônios. Assim, quando o ciclo vigília-sono se encontra desalinhado com o ciclo claro-escuro, ocorrem transtornos de humor, doenças cardiometabólicas como diabetes e hipertensão, obesidade, doenças cardiovasculares, doenças imunológicas e redução da qualidade de sono e, portanto, é fundamental que a sincronia seja obtida (FISHBEIN; KNUTSON; ZEE, 2021). Contudo, alguns indivíduos sofrem de distúrbios de ritmo, o que interfere significativamente em suas vidas pessoais, sociais e ocupacionais. Estes distúrbios podem ser tratados através de intervenções comportamentais (exposição à luz, regulação dos horários de exercício físico e alimentação) e farmacológicas (melatonina e agonistas da melatonina, como ramelteon e tasimelteon). Para este artigo, o foco será no tratamento comportamental e, especificamente, na terapia de luz.

De forma interessante, o estímulo luminoso apresenta respostas distintas no sistema de temporização circadiano a depender do horário de sua aplicação (GOOLEY, 2008). Por exemplo, ao ser aplicado pela manhã, provoca avanço de fase dos ritmos endógenos, o que faz o sono ocorrer mais cedo. Por outro lado, ao ser aplicado durante o início da noite biológica, provoca atraso de fase, tornando o início do sono mais tardio

Síndrome da fase atrasada de sono

Na síndrome da fase atrasada de sono, os pacientes apresentam horários de início de sono tardio, em horários que são incompatíveis com o que é exigido pela sociedade (iniciando o sono entre 02h e 06h da madrugada). Assim, estes pacientes possuem dificuldade para se levantar e executar atividades em horários convencionais. Além disto, geralmente ocorre restrição de sono e, consequentemente, sonolência diurna que prejudica o desempenho no dia a dia. O tratamento consiste na aplicação de luz no início da manhã, logo ao acordar. Com isto, ocorrerá avanço da fase de sono. Da mesma forma, é importante evitar estímulos luminosos durante o início da noite biológica (ROSENTHAL; JOSEPH-VANDERPOOL; LEVENDOSKY; JOHNSTON et al., 1990)

Síndrome da fase avançada de sono

Este distúrbio se caracteriza pelo significativo avanço dos períodos de sono. Assim, estes pacientes iniciam o sono entre 18h e 20h, e despertar entre 01h e 03h da manhã. Por este motivo, ao final da tarde apresentam sonolência. O tratamento consiste na aplicação de luz no início da noite biológica, além de evitar exposição a estímulos luminosos no início da noite. Não somente, o paciente deve evitar exposição à luz durante a madrugada/manhã para evitar avanços de fase indesejáveis.

Livre curso

O livre curso ocorre quando o indivíduo se encontra em dessincronização com o ciclo claro-escuro e o efeito percebido é o atraso da fase de sono a cada dia (geralmente 5 a 15 minutos por dia). Este distúrbio está presente quase que exclusivamente em indivíduos com deficiência visual com dano no nervo óptico (SACK; LEWY; BLOOD; KEITH et al., 1992) e é raro em indivíduos com capacidade visual normal, geralmente sendo atribuído à disfunção do caminho de sincronização à luz devido a tumores no sistema nervoso central, reduzida sensibilidade do sistema circadiano à luz ou exposição à luz de forma ineficiente. Em estudos de livre curso em paciente com sistema visual normal, foi realizada exposição à luz logo ao acordar com o objetivo de sincronizar o ciclo vigília-sono, e o objetivo foi alcançado com sucesso (HOBAN; SACK; LEWY; MILLER et al., 1989).

Irregularidade do ciclo vigília-sono

Nos pacientes com este distúrbio, o ciclo vigília-sono ocorre de forma desorganizada no ciclo de 24 horas, ocorrendo frequentes cochilos, insônia e sonolência diurna excessiva. Assim, o ciclo vigília-sono não pode ser completamente definido nestes pacientes (GOOLEY, 2008). Geralmente, este distúrbio decorre de problemas neurológicos (demência, lesão cerebral ou indivíduos com deficiência mental) ou exposição inadequada aos sincronizadores circadianos (luz, exercício físico, alimentação, compromissos sociais). Além disto, pode ocorrer também em idosos ou pacientes com demência que vivem em instituições (por exemplo, asilos) devido às condições luz constante e agendas sociais desreguladas.

O principal objetivo do tratamento é consolidar o sono durante a noite e a vigília durante o dia. Assim, a exposição à luz durante o dia deve ser aumentada, bem como evitar a luz durante a noite. Além disso, a prática de exercício físico e socialização devem ser estimuladas durante o ciclo claro do dia (ZEE; VITIELLO, 2009).

Jet lag

Este transtorno transitório ocorre após viagens transmeridionais que atravessam mais de 3 fusos. Os sintomas decorrem da dessincronização entre o sistema de temporização interno e o horário no local de destino. Geralmente, é necessário 1 dia para cada fuso atravessado para realizar a adaptação ao novo local de destino. Os sintomas incluem distúrbios gastrointestinais, sonolência diurna excessiva, insônia, dificuldade para acordar de manhã, redução do desempenho cognitivo e alterações de humor (SAMUELS, 2012).

A luz pode ser utilizada para acelerar a adaptação e reduzir os sintomas de jet lag. Para isto, deve-se considerar a direção da viagem e a adaptação que se deseja atingir (atraso ou avanço de fase). No geral, em viagens para o leste, o que se deseja é um avanço de fase, sendo necessária a aplicação do estímulo luminoso logo ao acordar. Por outro lado, em viagens para oeste, o que se deseja é o atraso de fase, então a aplicação do estímulo luminoso é recomendada à noite (SACK; AUCKLEY; AUGER; CARSKADON et al., 2007).

Como avaliar transtornos de ritmo

Para a avaliação e análise de ritmos, pode ser realizada avaliação através de actigrafia, que é a técnica padrão ouro para avaliar ritmos biológicos. O actígrafo é um equipamento semelhante a um relógio de punho e contém sensores de atividade, luz e temperatura. O software da CONDOR conta com cálculos automáticos para analisar variáveis específicas do ritmo circadiano, como análises não paramétricas (L5, M10, IV e IS), espectograma, periodograma e cosinor. Não somente, é possível analisar variáveis relativas ao sono, como tempo total de sono, latência para início de sono, eficiência de sono e despertares após o início de sono. Com esta técnica, é possível analisar o paciente por grandes períodos, sendo ideal para verificar se a intervenção adotada para o tratamento do transtorno observado está gerando os resultados esperados.

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