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Trabalho noturno e por turnos e implicações para a saúde

Diversas funções no corpo humano exibem periodicidade circadiana, como a temperatura central, hormônios como cortisol, melatonina, testosterona e hormônio do crescimento. Além desses, o ciclo vigília-sono exibe periodicidade circadiana. Este último é regulado por dois processos: processo circadiano (C) e processo homeostático (S). O processo C se refere à regulação circadiana do organismo enquanto o processo S se refere ao acúmulo de fadiga ao longo do dia. Diversos fatores regulam nossos ritmos endógenos, e o principal deles é a luz solar. Assim, o corpo humano evoluiu ao longo do tempo para se manter ativo durante o dia, enquanto há luz solar, e repousar durante a noite.

            Contudo, vivemos em uma sociedade que não para, de forma que é denominada sociedade 24/7 (funcionando 24 horas por dia, 7 dias por semana). Assim, algumas profissões e operações necessitam executar suas atividades durante o período noturno, como policiais, bombeiros, médicos, enfermeiros, mineradores, e operações industriais. O trabalho noturno é definido como aquele que se inicia entre 22 e 05h, enquanto o trabalho por turnos ocorre em diferentes momentos do dia (manhã, tarde e noite), ocorrendo de forma rotativa. No mundo, aproximadamente 25% dos trabalhadores estão inseridos em alguma rotina de trabalho por turnos. No Brasil, estima-se que 15% dos trabalhadores estejam inseridos em alguma rotina de trabalho por turnos (COSTA; FISCHER; MORENO; ROTENBERG, 2004)

As evidências científicas demonstram que esta população frequentemente sofre de desalinhamento circadiano e restrição de sono, e isto reflete negativamente na saúde destes trabalhadores. Distúrbios de sono, desordens cardiometabólicas, alterações psicológicas e câncer são alguns dos problemas gerados pelo trabalho em horário não convencional. A seguir, serão discutidas as consequências do trabalho noturno e em turnos para a saúde, e quais as possíveis causas destes males.

Relação entre trabalho noturno e por turnos e sono

            Trabalhadores por turnos com frequência apresentam tempo total de sono abaixo dos parâmetros recomendados para a população (acima de 7 horas por ciclo claro-escuro). Uma meta-análise conduzida em 2000 identificou que trabalhadores dormem, em média, 5h50min após turnos noturnos, e 8h02min após turnos vespertinos (PILCHER; LAMBERT; HUFFCUTT, 2000). Por outro lado, foi identificado que trabalhadores dormem em média 6h37min antes de turnos matutinos (AKERSTEDT, 2003). Estes achados podem ser explicados por fatores circadianos. Durante turnos noturnos, os trabalhadores exercem suas atividades no momento circadiano de maior propensão ao sono e, consequentemente, precisam exercer o repouso no momento menos propenso ao sono (o dia). Assim, fatores como temperatura central elevada, elevação da concentração de cortisol e redução da concentração de melatonina são fatores que impactam negativamente o sono de trabalhadores que precisam dormir durante o dia. Por outro lado, trabalhadores atuando em turnos matutinos, principalmente com início muito cedo (entre 5 e 7h da manhã), precisam acordar de madrugada. Neste caso, a restrição de sono pode ser causada também pela impossibilidade de adiantar os horários de sono. Considerando as características do ritmo endógeno (aproximadamente 24,5 h), é mais fácil atrasar o início do sono, do que o inverso. Outro fator que contribui para a restrição de sono em trabalhadores por turnos é o intervalo entre turnos. Há evidências de que intervalos muito curtos entre jornadas (menor que 11 horas) influenciam drasticamente no tempo total de sono dos trabalhadores (VEDAA; HARRIS; BJORVATN; WAAGE et al., 2016). Além disso, jornadas de trabalho muito longas também influenciam negativamente no tempo de sono de trabalhadores por permitir pouco tempo livre para lazer, tarefas domésticas e descanso.

Consequências para a saúde relacionadas à restrição de sono

            O sono é responsável pela manutenção de funções fundamentais no organismo, como regulação imunológica, equilíbrio hormonal e metabólico, redução de padrões inflamatórios e promoção do bem-estar individual. Assim, a restrição de sono acarreta diversos malefícios à saúde. A seguir veremos algumas consequências desta condição.

Doenças cardiovasculares

            Uma revisão sistemática e meta análise conduzida em 2012 demonstrou que trabalhadores por turnos estão mais propensos à infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral isquêmico (VYAS; GARG; IANSAVICHUS; COSTELLA et al., 2012). Análise de vários turnos de trabalhos demonstrou que o turno mais propenso a doenças cardiovasculares foi o turno noturno, enquanto o turno vespertino não foi relacionado com doenças cardiovasculares.

Distúrbios metabólicos

            Duas revisões sistemáticas concluíram que o trabalho noturno aumenta o risco para ganho de peso e obesidade (PROPER; VAN DE LANGENBERG; RODENBURG; VERMEULEN et al., 2016; VAN DRONGELEN; BOOT; MERKUS; SMID et al., 2011). Além disso, há evidências demonstrando que trabalhadores por turnos estão mais propensos a desenvolver diabetes tipo 2.

Câncer

            Há estudos demonstrando que as evidências são insuficientes para determinar se de fato há relação entre trabalho por turnos e câncer, enquanto outros estudos concluíram que exposições longas (maior que 20 anos) aumentam o risco de desenvolvimento de câncer. Contudo, há evidências para câncer de próstata (RAO; YU; BAI; ZHENG et al., 2015) e câncer colorretal (WANG; JI; ZHU; LIANG et al., 2015).

Acidentes no ambiente de trabalho

            Trabalhadores por turnos estão em risco aumentado para acidentes dentro e fora do ambiente de trabalho. Fatores circadianos contribuem para este cenário, pois o desempenho humano se correlaciona diretamente com a temperatura central. Assim, durante a madrugada, a temperatura central encontra-se em seu nadir (menor valor encontrado durante o dia) e, consequentemente, o desempenho encontra-se reduzido (maior tempo de reação, pior percepção do ambiente e pior capacidade de tomar decisões), aumentando assim o risco para acidentes.

Além disso, fatores inerentes à escala de trabalho como duração do turno e turnos sucessivos interferem neste aspecto. Evidências demonstram que o turno noturno apresenta maior risco para acidentes, e que este risco aumenta à medida que se acumulam turnos sucessivos. Além disso, o risco para acidentes é maior quanto maior for a duração do turno, com evidências demonstrando que turnos acima de 12 horas possuem risco duas vezes maior quando comparados a turnos de 6 horas (FOLKARD; TUCKER, 2003). Para saber mais, leia https://www.condorinst.com.br/fadiga-e-sono/.

Em resumo, as evidências apontam maior risco de ocorrências de doenças cardiovasculares, metabólicas e câncer para trabalhadores por turnos, especificamente para aqueles que trabalham no turno noturno. A similaridade de resultados relacionados a trabalho noturno e sono insuficiente sugerem que tempo total de sono insuficiente e de qualidade insatisfatória são responsáveis pelas doenças e acidentes observados em trabalhadores por turnos.

Mecanismos responsáveis pelas adversidades vivenciadas por trabalhadores por turnos

            Os fatores responsáveis pelos problemas vivenciados por trabalhadores podem ser agrupados em comportamentais, estresse psicossocial, e mecanismos fisiológicos.

Fatores comportamentais

            O trabalho por turnos é responsável por alterar diversos fatores comportamentais, como padrão de sono, exposição à luz, padrões alimentares, nível de atividade física, ingestão de bebidas alcoólicas e tabaco. Ao ficar acordado durante a noite, ocorre redução da secreção de melatonina, hormônio responsável por variadas funções no organismo e, dentre elas, função imunológica (CIPOLLA-NETO; AMARAL, 2018). Inclusive, a redução da secreção de melatonina é um dos mecanismos propostos para maior risco de desenvolvimento de câncer em trabalhadores por turnos, pois ela apresenta componente antitumoral. Uma meta-análise conduzida em 2015 concluiu que longas jornadas de trabalho semanal (acima de 48 horas) relacionam-se a maior ingestão de bebidas alcoólicas (VIRTANEN; JOKELA; NYBERG; MADSEN et al., 2015). Não somente, há evidências demonstrando que trabalhadores por turnos reportam fumar com maior frequência (HÄRMÄ, 2006) e realizam exercício físico menor frequência (VANDELANOTTE; SHORT; ROCKLOFF; DI MILLIA et al., 2015).

Estresse psicossocial

            Trabalhar em horários não convencionais acarreta desequilíbrio entre o trabalho e as demandas familiares. Geralmente, reuniões familiares e com amigos acontecem em momentos em que os trabalhadores precisam descansar ou estão exercendo suas atividades laborais. Assim, o desequilíbrio entre vida pessoal e trabalho é associado a má percepção de saúde (BAMBRA; WHITEHEAD; SOWDEN; AKERS et al., 2008).

Mecanismos fisiológicos

Desalinhamento circadiano

            Estudos demonstram que alterar horário da alimentação, padrão de sono e exposição à luz altera a secreção de hormônios regulatórios do organismo, como por exemplo, testosterona, hormônio do crescimento, melatonina, cortisol, insulina e prolactina.

Estresse neuroendócrino

            O padrão de sono alterado acarreta distúrbios no estresse percebido, gerando aumento na resposta estressora. Evidências indicam que trabalhadores por turnos possuem maior resposta ao estresse, bem como maior ativação do sistema nervoso simpático (FARAUT; BAYON; LÉGER, 2013).

Estresse cardiometabólico

            Semelhantemente, o padrão de sono alterado impacta negativamente na utilização de glicose e sensibilidade à insulina, alterando o equilíbrio energético do organismo. Trabalhar por turnos e principalmente durante o turno noturno, facilita a ingestão de alimentos em períodos fora da fase do organismo, e há evidências demonstrando que se alimentar durante a noite está relacionado a pior metabolismo de lipídeos (RIBEIRO; HAMPTON; MORGAN; DEACON et al., 1998). Além disso, a preferência alimentar durante o período noturno é caracterizada por alimentos de maior valor calórico, como lanches e alimentos gordurosos em detrimento de alimentos saudáveis como saladas e frutas. Isso ocorre devido à redução da temperatura central por fatores circadianos, o que leva à busca por alimentos de alto valor calórico, bem como pela desregulação entre os hormônios leptina e grelina (aumento da grelina, hormônio responsável pela sensação de fome, e redução da leptina, hormônio responsável pela sensação de saciedade).

            Estudos indicam que má qualidade de sono, bem como tempo total de sono insuficiente se relaciona à hipertensão arterial (GUO; ZHENG; WANG; ZHANG et al., 2013). Além disso, há também relação entre trabalho por turnos, pior perfil lipídico, e coagulação sanguínea. Por fim, há evidências demonstrando que trabalhadores por turnos estão em risco aumentado para o desenvolvimento de aterosclerose subclínica, e esta condição se apresenta mesmo em trabalhadores com idade abaixo de 40 anos (PUTTONEN; KIVIMÄKI; ELOVAINIO; PULKKI-RÅBACK et al., 2009).

Função imune alterada

            Padrão de sono alterado se relaciona com maiores níveis de marcadores inflamatórios, como proteína C reativa e interleucina 6 (IRWIN, 2015). Já está bem estabelecido que o sono ajuda na resposta de células T helper 1 e a restrição de sono acarreta reatividade das células T helper 2, e esta reação é semelhante a outros tipos de estresse. Assim, restrição de sono e sono de má qualidade se relaciona com maior probabilidade de contrair a gripe comum. Ainda, Silva e colaboradores expõe que trabalhadores por turnos estão mais expostos à contrair o vírus da COVID-19, e este fato se dá por fatores como padrão de sono alterado, comportamento sedentário e desalinhamento circadiano (SILVA; GUERREIRO, 2020).

Tolerância individual ao trabalho por turnos e noturno

            Algumas pessoas toleram melhor o trabalho por turnos e noturno que outras (SAKSVIK; BJORVATN; HETLAND; SANDAL et al., 2011). Diferenças em genes relacionados a regulação circadiana e homeostática acarretam diferenças na pressão para o sono, fadiga e desempenho (ARENDT, 2010). Assim, as evidências indicam que trabalhadores com cronotipo vespertino parecem se adaptar melhor ao trabalho por turnos e noturno, assim como aqueles que conseguem dormir em diferentes momentos durante o dia. Não somente, aspectos da personalidade como neuroticismo, baixa extroversão, baixa testosterona e necessidade de dormir longas horas parece se relacionar com má adaptação ao trabalho por turnos. Portanto, estas pessoas se tornam grupo de risco para o trabalho noturno.  

Como avaliar o sono de trabalhadores

As evidências demonstram que o sono insuficiente e em quantidade insatisfatória é um dos principais fatores que acarretam prejuízos à saúde de trabalhadores. Assim, torna-se essencial a avaliação da qualidade de sono desta população. Neste aspecto, a actigrafia é uma técnica útil e não invasiva que pode ser utilizada para avaliação do sono e ritmos biológicos (Sadeh, 2011). O actígrafo é um equipamento semelhante a um relógio de punho e contém sensores de movimento, luz e, em alguns modelos mais modernos, sensores de temperatura. A análise dos dados permite a obtenção de variáveis como o tempo total de sono, eficiência do sono (relação entre o tempo de cama e tempo em que o indivíduo realmente dormiu), latência para início de sono (tempo decorrido entre a intenção de dormir e início do sono), tempo acordado após início do sono e tempo total em vigília. Para maiores informações, veja https://condorinst.com.br/o-que-e-actigrafia/.

Conclusão

Trabalhadores noturnos e por turnos estão expostos a condições que afetam substancialmente sua saúde e qualidade de vida. O desalinhamento circadiano e sono de má qualidade e em quantidade insuficiente acarretam alterações imunológicas, cognitivas e cardiometabólicas. Além disso, o estresse psicossocial decorrente de horários dessincronizados com família e amigos, bem como hábitos sedentários e comportamento alimentar inadequado contribuem para compor este cenário negativo. Assim, é importante que esta população seja avaliada regularmente visando a identificação de possíveis distúrbios de sono, bem como a adaptação da escala de trabalho em modelo que se adeque melhor aos perfis dos trabalhadores.  Neste aspecto, é importante considerar condições como a duração da jornada de trabalho, intervalo entre jornadas que deve ser menor que 11h, a velocidade e direção de rotação dos turnos, bem como a quantidade de turnos noturnos sucessivos, pausa entre e intrajornadas, e criar estratégias para criar um ambiente de trabalho acolhedor e amigável.

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